“Poligamia musical”: Ju Strassacapa (Francisco, el Hombre) fala sobre sua nova fase com LAZÚLI

Em entrevista ao TMDQA!, cantora falou a respeito de suas motivações para novo projeto solo

LAZÚLI (Ju Strassacapa)
Foto por Flora Vieira
 

Por Nathália Pandeló Corrêa

Sinônimo de intuição e espiritualidade, a pedra lápis lazúli é que batiza e inspira a nova fase de Ju Strassacapa. Embora seja conhecida como vocalista da Francisco, el Hombre, com quem subiu a palcos como Rock in Rio e Lollapalooza Brasil, a nova fase de sua carreira tem ares de recomeço. Além da banda, Ju vai se dedicar ao projeto solo LAZÚLI, onde mescla produção eletrônica, funk carioca, funk norte-americano, diferentes facetas do rock e elementos folclóricos brasileiros e de muitos lugares.

Ju é, também, múltiplas. Solo ou plural, ela fala não deixa de refletir sua identidade enquanto pessoa trans não-binária, mas vai além disso. As novas faixas são uma progressão natural do que já havia revelado em singles longe de sua banda principal, porém agora Strassacapa escreve de um outro lugar, de auto-investigação. Ela resgata composições engavetadas ao longo dos anos sob um novo prisma. As canções ganharam outra roupagem com uma imersão em estúdio no interior de São Paulo, na companhia de outros nomes de destaque da cena independente nacional: ÀIYÉ, Cris Botarelli e Lena Papini.

O primeiro single é “Me Aconteci”, reflexão de uma sensação de descompasso constante, da busca pelas próprias notas, tons, ritmos. Este é o primeiro gostinho de um álbum completo, previsto para o primeiro semestre de 2022.

LAZÚLI conversou com o TMDQA! sobre esse novo momento. Confira abaixo após o vídeo.

TMDQA!: Você já havia lançado músicas solo como Ju Strassacapa. Por que escolheu “Me Aconteci” pra essa nova identidade como LAZÚLI?

LAZÚLI: Escolhi “Me Aconteci” exatamente pelo nome e mensagem dela, de me manifestar, me existir, mostrar minha essência, a potência Eu Sou que é indestrutível e parte de tudo ao mesmo tempo. É um partir do cerne, do vazio, para a jornada de auto-investigação que se estende a perder de vista.

TMDQA!: Essa música, em especial, dialoga muito com vários conceitos de identidade. Como é expor em poucos versos algo que você vem construindo ao longo de uma vida inteira?

LAZÚLI: Acho que é meio pós-identitária essa música, porque esse Eu de quem falo, não é meu ego, nem é uma potência ou lugar exclusivo meu, pelo contrário, é um ponto interior de paz e presença no qual se pode sentir-se fundir com a natureza, com o tudo e o nada. Foi um momento de êxtase quando a escrevi, porque estava precisando muito encontrar essa presença no aqui e agora.

TMDQA!: Música é cura, mas é também terapia? O quanto desse processo criativo serve de instrumento pra sua auto-análise, para lidar com suas questões emocionais e de auto-conhecimento?

LAZÚLI: Sinto que a cura nunca é apenas de um ser, se eu me curo, posso auxiliar na cura de outres e influenciar as frequências do meu entorno. O autoconhecimento também é um serviço, pois ao nos nutrir de hábitos e frequências harmônicas, contribuímos para que as águas das inter-relações fiquem mais e mais serenas e translúcidas. Assim como sentimos a bad vibe vindo de alguém, se pode sentir quando há uma pessoa em paz consigo mesma e em equilíbrio no mesmo ambiente, isso nos atrai e auxilia nos nossos próprios centros energéticos.

TMDQA!: Apesar de ser um projeto seu, sem a banda da qual faz parte, é também uma construção coletiva com Larissa, Cris, Lena, pra citar só as instrumentistas. Como é entregar canções tão pessoais nas mãos de colaboradoras externas? O que elas trazem para somar à sua identidade enquanto artista?

LAZÚLI: Escolhi a dedo essas manas maravilhosas e confio muito nelas. Temos aprendido bastante com essa coprodução e arranjo das músicas. Sinto que atingimos um lugar saudável entre coletividade e projeto “solo”, onde tenho entendido mais o que quero e aprendido a me colocar com autoconfiança, sabendo também ser flexível e considerando as visões únicas de cada uma sobre o que cada música pode vir a ser. Elas trazem 4 novas consciências profundamente criativas, amorosas e sensíveis. O disco que virá é uma filhota de todas.

TMDQA!: O que LAZÚLI vai te possibilitar fazer que não caberia na identidade já estabelecida de Francisco, el hombre?

LAZÚLI: Tudo o que eu quiser! A grande diferença de um coletivo para o outro é que, tendo pré-estabelecido que este é um projeto “solo”, tenho muito mais liberdade para direcionar os caminhos das criações conforme minha intuição. Eu acabo tendo a palavra final, o que tem me trazido muita autonomia e sabedoria. Muito diferente da Francisco, onde tudo passa pelo filtro e aprovação de 5 ou mais cabeças e corações. Há temas como espiritualidade, magia, questões de gênero e sexualidade que não cabem muito bem ali dentro e tudo bem! Poligamia musical!

TMDQA!: Você está preparando o álbum pro ano que vem. Pretende fazer shows dele, quando o calendário de eventos já estiver mais normalizado? O que pode antecipar desse formato ao vivo?

LAZÚLI: Com toda certeza!! Estamos doidas pra circular com esse ritualzão que será esse show! Posso antecipar que teremos timbres orgânicos e eletrônicos, muita magia e uma banda de mulheres monstras em suas habilidades. Estou realmente muito feliz de finalmente ter uma banda só de manas, é um sonho adolescente que tô realizando de maneira linda! Já sentimos muito entrosamento tocando juntas, então segura a peruca, bixa!

TMDQA!: As músicas que você vem lançando fazem parte de um compilado de composições feitas ao longo de alguns anos. Como escolheu as faixas que mais contemplam a pessoa e a artista que é hoje?

LAZÚLI: Escolhi de maneira bem orgânica e intuitiva. Fui entendendo quais estavam mais no ponto de serem trabalhadas agora, o que o momento estava me pedindo e elas foram se encaixando naturalmente.

TMDQA!: Ao revisitar suas composições próprias, teve algo que te surpreendeu sobre você mesma durante esse processo de desenvolvimento criativo e pessoal?

LAZÚLI: Durante as gravações de voz, sempre me surpreendo com o impacto de cada mensagem. É como se, para gravar bem uma música, tenho que senti-la até o caroço, saca? Então sempre me sobressalto quando a chave finalmente vira dentro de mim e eu internalizo a mensagem, daí o take de voz sai massa!

TMDQA!: As pessoas já te conhecem de cima do palco, de cantar com outros artistas. O que LAZÚLI vai trazer de novo pra quem já acompanha seu trabalho? O que você acha que vai mais surpreender o público?

LAZÚLI: Vou trazer tudo o que sou, sinto e penso, de maneira desnuda e profunda. Assim como sempre podemos nos surpreender com pessoas que conhecemos há eras, espero que a cada música, minha voz plante sementinhas nutridoras sábias que coletei por minhas jornadas. Para mim, cantar é um serviço e compor é canalizar, assim como uma xamã canaliza mensagens da natureza para que aprendamos com a Mãe Terra, sou curandeira através da música.

 
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